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terça-feira, 14 de março de 2017

ANÁLISE E ATIVIDADES DA MÚSICA GENI E O ZEPELIM

ANÁLISE E ATIVIDADES DA MÚSICA GENI E O ZEPELIM


15-05-2014 17:52

Geni e o Zepelim

CHICO BUARQUE

(isso é um repost, fonte no final)

 

De tudo que é nego torto

Do mangue e do cais do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

É de quem não tem mais nada


 

Dá-se assim desde menina

Na garagem, na cantina

Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos

Das loucas, dos lazarentos

Dos moleques do internato

E também vai amiúde

Com os velhinhos sem saúde

E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade

E é por isso que a cidade

Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni!

Joga pedra na Geni!

Ela é feita pra apanhar!

Ela é boa de cuspir!

Ela dá pra qualquer um!

Maldita Geni!

Um dia surgiu, brilhante

Entre as nuvens, flutuante

Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios

Abriu dois mil orifícios

Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada

Se quedou paralisada

Pronta pra virar geleia

Mas do zepelim gigante

Desceu o seu comandante

Dizendo: "Mudei de ideia!"

Quando vi nesta cidade

Tanto horror e iniquidade

Resolvi tudo explodir

Mas posso evitar o drama

Se aquela formosa dama

Esta noite me servir

Essa dama era Geni!

Mas não pode ser Geni!

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um

Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela

Tão coitada e tão singela

Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso

Tão temido e poderoso

Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela

(E isso era segredo dela)

Também tinha seus caprichos

E ao deitar com homem tão nobre

Tão cheirando a brilho e a cobre

Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia

A cidade em romaria

Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos

O bispo de olhos vermelhos

E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni!

Vai com ele, vai, Geni!

Você pode nos salvar

Você vai nos redimir

Você dá pra qualquer um

Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos

Tão sinceros, tão sentidos

Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante

Entregou-se a tal amante

Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira

Lambuzou-se a noite inteira

Até ficar saciado

E nem bem amanhecia

Partiu numa nuvem fria

Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado

Ela se virou de lado

E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia

E a cidade em cantoria

Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni!

Joga bosta na Geni!

Ela é feita pra apanhar!

Ela é boa de cuspir!

Ela dá pra qualquer um!

Maldita Geni!

Joga pedra na Geni!

Joga bosta na Geni!

Ela é feita pra apanhar!

Ela é boa de cuspir!

Ela dá pra qualquer um!

Maldita Geni!

 

Quando trabalho com o Realismo sempre uso a canção "Geni e o Zepelim". Ela contempla muitos dos aspectos realistas... Vamos à analise.

Parte das músicas mais geniais que já ouvi nasceram das músicas de duplo sentido ou de mensagem subliminar de Chico Buarque. É o caso de “Geni e o Zepelin“, um dos melhores momentos de “A Ópera do Malandro“.

A música é cantada na peça pela personagem Genivaldo, um travesti que responde pelo nome de Geni. A letra, entretanto, não nos dá essa informação, podendo, fora do contexto da Ópera do malandro, referir-se tranqüilamente a uma mulher, até pelas referências femininas (“ela”; “aquela formosa dama”), e pela ausência de qualquer termo específico que nos indique tratar-se de um travesti” ( FONTES, 2003, p.81).

A música “Geni e o Zepelim” (1978) apresenta o eu-lírico masculino cantando a musa ou a amante e o eu- feminino que só pode ser exposto com a tutela do poeta. A temática central da canção está na bondade/maldade que estão intimamente direcionados à ação de Geni e na resposta da população. A bondade de Geni é demonstrada no verso “[...] Tudo que é nego torto/ Do mangue do cais do porto/ ela já foi namorada [...] rainha dos detentos/ das loucas, dos lazarentos” (FONTES, 2003). Inicialmente se recusou a dar seu corpo para o comandante Zepelim que representava o luxo e o poder. “Tão cheirando a brilho e a cobre”. Essa atitude põe a cidade em perigo. A população aclama “Vai com ele, vai Geni/ Você pode nos salvar/ Você vai nos redimir/ você dá para qualquer um / Bendita Geni”. Para salvar a população a personagem Geni aceita o pedido de Zepelim, personagem que nos chama muita atenção. O compositor dá a resolução da história para Geni, a prostituta/mulher pobre e na peça a personagem é representado por um homem. Cabe destacar vários elementos, um deles é o homem fazendo papel feminino. Será que esta escolha não nos remete a questionar a rigidez dos gêneros masculino/feminino? Ou quem sabe problematizar o discurso cultural hegemônico que se baseia em binarismos.

O público que assiste à peça constrói a imagem do travesti, pois identifica que o corpo é de homem, mas as ações são femininas. O próprio nome da personagem Geni(Valdo) já sugere o gênero como fluído, relacional, plural.

A atitude de valorizar a mulher como ser humano transparece nas canções buarqueanas que diretamente fazem alusão à infração das leis morais, como na mulher prostituta ou homossexual. Neste universo, destacamos várias mulheres: a mulher possessiva, a romântica, a dona-de-casa, a desafiante, a homossexual, dentre estas, valor especial recebe a parcela transgressora do sistema social. Algumas músicas explicitam essas temáticas, tais como: “Bárbara” (1973), que fala de uma relação amorosa entre duas mulheres “vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas/ e mergulhar no poço escuro de nós duas”. A temática homossexual insere-se no movimento em prol da liberdade de expressão e de orientações sexuais; contudo, ainda era tabu, tanto entre homens como entre mulheres.

Talvez o que mais encante na poesia de Chico Buarque, em se tratando do feminino e masculino, seja o alargamento das expressões, que não fixa o ser-homem e ser-mulher, mas permite transitar entre os sentimentos humanos. Diferentes sentimentos são mostrados com poesia, permitindo falar do desejo da completude de uma forma suave e melódica. Como na canção “Todo o sentimento” (1987), que fala do amor maduro que pode adoecer... [...] Prometo te querer, até o amor cair, doente...

 

DIVIDINDO A CANÇÃO

A canção pode ser dividida em quatro grandes cenas:

A primeira, Geni é apresentada como sendo promíscua, aquela que "dá-se assim desde menina, na garagem, na cantina, atrás do tanque, no mato", é ainda qualificada como “rainha dos detentos”. A personagem vai sendo “pincelada” aos poucos. As características vão sendo narradas em recortes que vão desde a sua infância até o momento da música. O primeiro refrão ajuda a criar essa visão sobre a personagem.

A segunda, a chegada do zepelim, A segunda cena apresenta o zepelim de modo grandioso e temeroso. O recorte cai sobre as nuvens onde de modo assustador se revela o zepelim destruidor. Em seguida, através  de um plano geral (PG), o poder do zepelim fica claro quando paira sobre os edifícios, tamanha é a sua grandiosidade:

 

Um dia surgiu, brilhante

Entre as nuvens, flutuante

Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios

Abriu dois mil orifícios

Com dois mil canhões assim

 

No momento seguinte o plano da cena passa ao comandante do zepelim. A cena é apresentada em plano médio e traz o diálogo à canção, revelando as intenções do invasor. Aqui o refrão mostra a surpresa dos cidadãos com o interesse do homem por Geni, é o ponto que elevará o status de Geni de marginal para heroína.

 

A terceira, que transforma Geni em heroína, o momento já muda o modo de se referir à personagem que é agora tratada por donzela. O recorte volta mostrando diversos momentos distintos depois do pedido do comandante. Em certo momento o plano geral muda para primeiro plano, apresentando personagens implorando o aceite de Geni:

 

Ao ouvir tal heresia

A cidade em romaria

Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos

O bispo de olhos vermelhos

E o banqueiro com um milhão

 

A quarta, a conclusão e volta de Geni ao submundo. Após o novo refrão, símbolo da cidade aos pés de Geni, nos é apresentada a última cena da canção. Aqui novamente os acontecimentos seguintes são apresentados em recortes.

Iniciando com a decisão de Geni, passando ao momento do encontro entre Geni e o comandante do zepelim e ao trágico fim onde de heroína Geni volta a ser personagem da margem, vítima daqueles a quem ajudou:

 

Foram tantos os pedidos

Tão sinceros tão sentidos

Que ela dominou seu asco

Ele fez tanta sujeira

Lambuzou-se a noite inteira

Até ficar saciado

[...]

Num suspiro aliviado

Ela se virou de lado

E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia

E a cidade em cantoria

Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni

Joga bosta na Geni

[...]

 

Quanto aos aspectos realistas, há muito a se comentar. Assim como o Realismo critica a imagem feminina como anjo, imaculável, Chico em sua canção, disponibiliza a todos "Geni". A prostituta/ homossexual/ discriminada/ não pura Geni. Critica duramente a hipocrisia da sociedade como os casamentos arranjados, perfeitos; e a Igreja Católica.

 

 

Ao final do artigo, o site propõe algumas atividades para reflexão sobre tudo o que foi mencionado. Seguem, abaixo:

 

ESTUDO DA CANÇÃO GENI E ZEPELIM

1-    Quem é Geni? Ela sofre algum tipo de violência? Comprove a sua resposta com a canção.

2-    Chico Buarque critica três instituições na canção, que também são criticadas pelo Realismo. Cite essas três instituições e como são representadas na canção.

3-    Na 1ª parte da canção, o autor mostra a personalidade de Geni, mas não de forma pejorativa. Cite os versos que comprovam isto.

4-    Explique que cidade era essa retratada pelos versos: “E é por isso que a cidade / Vive a sempre a repetir”.

5-    A situação se repetia, até surgir “uma força superior”. Que força era essa e o porquê de superior?

6-    O comandante ameaçou explodir a cidade. Será que o horror e a iniqüidade provinham da “Formosa dama Geni” ou da cidade? Justifique com os versos do texto.

7-    A “cidade” se expressa de novo, se mostrando incrédula quanto à escolha do comandante. Cite os versos que comprovam esta afirmação.

8-    Geni passa de MALdita para BENdita. Explique como funcionam esses contrários.

9-    O autor mostra poder como “algo sujo”, pela forma como o comandante trata Geni durante a noite. Mesmo depois do sacrifício dela, além de pedra, Geni recebe “bosta” também. Retire os versos que retratam as duas situações citadas.

10-   Há características realistas presentes na canção. Cite-as e mostre os versos que comprovem suas citações.

 

 

 

 

Ler mais: http://profaclaudiacem804.webnode.com.br/news/analise-da-musica-geni-e-o-zepelim/

 




Fonte: http://profaclaudiacem804.webnode.com.br/news/analise-da-musica-geni-e-o-zepelim/
Ao repostar, dê crédito à autora do texto.

*Prof.ª Mestra em Literatura Brasileira pela UNIMONTES Juliana Barreto juportugale@hotmail.com

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