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terça-feira, 29 de junho de 2010

Prever, prover, provir *PASQUALE CIPRO NETO

Prever, prover, provir *


PASQUALE CIPRO NETO **



Está escrito no Código Penal e transcrito nos talões de cheques de vários bancos: "Incide em crime de estelionato aquele que emite cheque sem suficiente provisão de fundos...".



O que significa "provisão"? Os dicionários dizem que é sinônimo de "provimento".



Em "provimento", encontra-se "ato de prover", portanto "provisão" também é "ato de prover". E em "prover" encontra-se extensa lista de significados, que inclui "fornecer, suprir, munir, abastecer".



Moral da história: é preciso prover a conta bancária, ou seja, abastecê-la com o devido combustível, o dinheiro.



Prover é uma daquelas tantas palavras que, quando muito, fazem parte do nosso vocabulário passivo. Conhecemos, mas poucas vezes usamos.



Você nunca saiu de casa dizendo que ia prover o carro. Ou já saiu? É pouco provável. Mas, com o advento dos computadores e da Internet, surgiu a figura do "provedor".



Quem é o provedor? Simplesmente aquele que provê, ou seja, aquele que abastece o reservatório de informações que interessam aos assinantes.



E a palavra "provedor" passou a fazer parte de nosso vocabulário ativo, o que não ocorre com as cognatas "prover", "provisão" e "provimento".



Antes que alguém pergunte, são cognatas as palavras que têm raiz comum, como homem, humano, humanidade.



Bem, já que a palavra "provedor" entrou na dança, alguém pode ficar tentado a conjugar o verbo "prover".



E é aí que a roda pega. Esse verbo é híbrido. No presente do indicativo e no presente do subjuntivo, sua conjugação segue a do verbo "ver".



Então, se eu vejo, eu provejo. Se ele vê, ele provê. E, se eles vêem, eles provêem.



O caminho é o mesmo no subjuntivo. Se ela quer que eu veja, ela quer que eu proveja. Se ela quer que eles vejam, ela quer que eles provejam.



E por que o verbo é híbrido? Porque nos demais tempos sua conjugação é regular, ou seja, é igual à de qualquer verbo regular terminado em "er", como beber, bater, vender.



Vamos lá. Se ele bebeu, bateu, vendeu, então ele proveu. Se eles beberam, bateram, venderam, então eles proveram.



A coisa é enjoada. Quando se misturam alguns dos verbos que dão título a esta coluna, então, a coisa fica feia de vez.



Foi o que fez há algum tempo a Fuvest, que elabora o vestibular da USP. "Ele previu a seca e proveu a casa", dizia uma frase da prova de português.



Improváveis na linguagem oral, essas formas verbais talvez habitem algum texto culto. E não custa saber: previu é de prever; proveu é de prover.



E provir? Derivado de vir, é ótimo assunto para a próxima coluna. É isso.





* In Folha de S. Paulo de 25/3/1999. :: 26/03/1999

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Comentários sobre a Prova da Unimontes – As funções do SE

PLANTÃO DO VESTIBULANDO


Uma maneira simples de aprender a como chegar lá...

Comentários sobre a Prova da Unimontes – As funções do SE

Olá, pessoal. Atendendo aos pedidos dos meus leitores, vou comentar sobre o assunto de uma das questões da prova do processo seletivo que aconteceu no último dia 13, à tarde, da UNIMONTES: o uso do SE e suas funções. Vamos lá?

A palavra SE pode exercer diversas funções dentro da língua portuguesa:



a) Pronome apassivador ou partícula apassivadora: Aparece na formação da voz passiva sintética com verbos transitivo direto, e transitivo direto e indireto. Na prática, a frase pode ser transposta para a passiva analítica (com dois verbos). Ex.: Reformam-se móveis velhos. (= Móveis velhos são reformados.)



b) Índice de indeterminação do sujeito: Aparece junto a verbo intransitivo ou transitivo indireto..Como o nome já diz, quando exerce essa função, a palavra SE indetermina o sujeito da oração. Esse tipo de oração não admite a passagem para a voz passiva analítica e o verbo estará sempre na 3º pessoa do singular. Ex.: Vive-se bem naquele país.



c) Pronome reflexivo:.Usado para indicar que a ação praticada pelo sujeito recai sobre ele mesmo (voz reflexiva). É substituível por: a si mesmo, a si próprio etc. Ex.: O lenhador machucou-se com a foice. (= machucou a si mesmo)



d) Pronome reflexivo recíproco:.Usado para indicar que a ação praticada por um dos elementos do sujeito recai sobre o outro elemento do sujeito e vice-versa. Na prática, é substituível por: um ao outro, uns aos outros etc. Ex.: Pai e filho abraçaram-se emocionados. (= abraçaram um ao outro)



e) Parte integrante do verbo:.Há verbos que são essencialmente pronominais, isto é, são sempre apresentados e conjugados com o pronome. Geralmente se referem a sentimentos e fenômenos mentais: indignar-se, ufanar-se, atrever-se, admirar-se, lembrar-se, esquecer-se, orgulhar-se arrepender-se, queixar-se, etc. Ex.: Os atletas queixaram-se do tratamento recebido.



f) Partícula expletiva ou de realce: O SE é considerado partícula expletiva ou de realce quando ocorre, principalmente, ao lado de verbos intransitivos, de movimento ou que exprimem atitudes da pessoa em relação ao próprio corpo (ir-se, partir-se, chegar-se, passar-se, rir-se, sentar-se, sorrir-se, etc.), em construções em que o SE não apresenta nenhuma função essencial para a compreensão da mensagem. Trata-se de um recurso estilístico, um reforço de expressão. Ex.: Acabou-se a confiança no próximo.



É isso, pessoal. Espero que tenha sido bastante útil pra vocês. Até a próxima.

JULIANA BARRETO – PROFª DE LÍNGUA PORTUGUESA – Matéria publicada pelo Jornal A Semana, de Pirapora/MG, em 18.06.2010.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O uso da Coerência no texto

Coerência


Pretendemos, neste tema, trabalhando com os conceitos de coerência e coesão, mostrar o papel e a importância de cada um desses mecanismos não só para a leitura e a compreensão de textos como também para sua produção.

A coerência e a coesão contribuem para conferir textualidade a um conjunto de enunciados. Assim, a coerência, manifestada em grande parte no nível macrotextual, é o resultado da possibilidade de se estabelecer alguma forma de unidade ou relação entre os elementos do texto. E a coesão, manifestada no nível microtextual, se refere ao modo como os vocábulos se ligam dentro de uma seqüência.

Ao analisar esses mecanismos, mostramos, por meio de exemplos, as formas em que podem ocorrer. Ao mesmo tempo, procuramos fazer com que os usuários saibam empregar adequadamente cada mecanismo não só para depreender o sentido de um texto como para produzir textos com sentido, estabelecendo uma continuidade entre as partes, de modo a instaurar entre elas uma unidade, ou seja, a coerência.

É importante também lembrar que a coesão pode auxiliar no estabelecimento da coerência, embora, às vezes, a coesão nem sempre se manifeste explicitamente através de marcas lingüísticas, o que faz concluir que pode haver textos coerentes mesmo que não tenham coesão explícita.

Este tema será, portanto, desenvolvido com o objetivo de mostrar aos usuário da língua que:


1) mais importante que conhecer os conceitos de coerência e coesão é saber de que maneira esses fenômenos contribuem para tornar um texto inteligível;

2) a coerência (conectividade conceitual) e a coesão (conectividade seqüencial) são requisitos fundamentais para a elaboração de qualquer tipo de texto;

3) enquanto a coerência se fundamenta na continuidade de sentidos, a coesão pode se apresentar por meio de marcas lingüísticas, observadas na gramática ou no léxico;

4) é necessário perceber como coerência e coesão se completam no processo de produção e compreensão do texto.

Considerações sobre o conceito de coerência



No nosso dia-a-dia, são comuns comentários do tipo:

Isto não tem coerência.
Esta frase não tem coerência.
O seu texto está incoerente.

O que leva as pessoas a fazerem tais observações, provavelmente, é o fato de perceberem que, por algum motivo, escapa a elas o entendimento de uma frase ou de todo o texto.
Coerência está, pois, ligada à compreensão, à possibilidade de interpretação daquilo que se diz ou escreve. Assim, a coerência é decorrente do sentido contido no texto, para quem ouve ou lê. Uma simples frase, um texto de jornal, uma obra literária (romance, novela, poema...), uma conversa animada, o discurso de um político ou do operário, um livro, uma canção ..., enfim, qualquer comunicação, independente de sua extensão, precisa ter sentido, isto é, precisa ter coerência.

A coerência depende de uma série de fatores, entre os quais vale ressaltar:


· o conhecimento do mundo e o grau em que esse conhecimento deve ser ou é compartilhado pelos interlocutores;

· o domínio das regras que norteiam a língua - isto vai possibilitar as várias combinações dos elementos lingüísticos;

· os próprios interlocutores, considerando a situação em que se encontram, as suas intenções de comunicação, suas crenças, a função comunicativa do texto.


Portanto, a coerência se estabelece numa situação comunicativa; ela é a responsável pelo sentido que um texto deve ter quando partilhado por esses usuários, entre os quais existe um acordo pré-estabelecido, que pressupõe limites partilhados por eles e um domínio comum da língua.
A coerência se manifesta nas diversas camadas da organização do texto. Ela tem uma dimensão semântica - caracteriza-se por uma interdependência semântica entre os elementos constituintes do texto. Tem principalmente uma dimensão pragmática - é fundamental, no estabelecimento da coerência, o nosso conhecimento de mundo, e esse conhecimento é acumulado ao longo de nossa existência, de maneira ordenada.

Ainda com respeito ao conhecimento partilhado de mundo, devemos dizer que a ele se acrescentam as informações novas. Se estas forem muito numerosas, o texto pode se tornar incoerente devido à não-familiaridade do ouvinte/leitor com essa massa desconhecida de informações. É isto que acontece, por exemplo, quando lemos um texto muito técnico, de uma área na qual somos leigos.
Na verdade, quando dizemos que um texto é incoerente, precisamos esclarecer que motivos nos levaram a afirmar isto. Ele pode ser incoerente em uma determinada situação, porque quem o produziu não soube adequá-lo ao receptor, não valorizaou suficientemente a questão da comunicabilidade, não obedeceu ao código lingüístico, enfim, não levou em conta o fato de que a coerência está diretamente ligada à possibilidade de se estabelecer um sentido para o texto.

Observando o grupo de frases abaixo, consideradas do ponto de vista estritamente referencial,

O homem construiu uma casa na floresta.
O pássaro fez o ninho.
O lenhador derrubou a árvore.
O trabalhador acompanhou o noticiário criticamente.
As árvores estão plantadas no deserto.
A árvore está grávida.
podemos notar que as quatro primeiras não oferecem qualquer problema de compreensão. Dizemos, então, que elas têm coerência. Já não ocorre o mesmo em relação às duas últimas. Em As árvores estão plantadas no deserto, há duas idéias opostas, uma contraria a outra. Em A árvore está grávida, há uma restrição na combinatória ser vegetal + grávida, o que não ocorre em A mulher está grávida, em que temos a combinatória possível ser racional + grávida.

Examinemos agora as frases:

a) O pássaro voa.
b) O homem voa.

A frase a tem um grau de aceitação maior do que a frase b, que depende de uma complementação para esclarecer qual o meio utilizado pelo homem para voar - O homem voa de asa delta, por exemplo. A combinação de homem com voa tem outras significações no plano da conotação: O homem sonha, o homem delira, o homem anda rápido. Neste plano, muitas outras combinações são possíveis:

As nuvens estão prenhes de chuva.
Sua boca cuspia desaforos.

Observe os três pares que se seguem:

1. a) Todo mundo destrói a natureza menos eu.
b) Todo mundo destrói a natureza menos todo mundo.


2. a) Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não.
b) Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não ouvi o sabiá cantar.

3. a) Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta sobrevive.
b) Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta não tem muitas árvores.

· as frases de letra a de cada par são facilmente compreendidas, têm coerência;

· as frases de letra b de cada par apresentam problema de compreensão.

1 a. Todo mundo destrói a natureza menos eu.
o vocábulo menos indica exclusão de uma parte do grupo, portanto, neste caso, pode ser combinado com o pronome eu

1 b.Todo mundo destrói a natureza menos todo mundo
há uma restrição, porque o vocábulo menos indica exclusão de uma parte do grupo, portanto, neste caso, não pode ser combinado com todo mundo, que indica o grupo inteiro

2 a.Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não
mas introduz uma idéia oposta, que é perfeitamente aceitável, porque todo mundo se diferencia de eu

2 b. Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não ouvi o sabiá cantar
mas introduz uma idéia oposta, que é inaceitável porque o conteúdo da idéia introduzida por mas não é o contrário da idéia anterior. Assim, a primeira parte Todo mundo viu o mico-leão não pode ser combinada com eu não ouvi o sabiá cantar por intermédio do vocábulo mas

3 a. Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta sobrevive
o uso de apesar de pressupõe a presença de idéias contrárias, qualquer que seja a ordem : negativa/positiva, positiva/negativa

3 b. Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta não tem muitas árvores
o uso de apesar de pressupõe a presença de idéias contrárias, qualquer que seja a ordem: negativa/positiva, positiva/negativa. Daí a incoerência da frase b, em que ocorrem duas negativas simultâneas


Tipos de Coerência

Coerência Semântica
Refere-se à relação entre os significados dos elementos das frases em seqüência; a incoerência aparece quando esses sentidos não combinam, ou quando são contraditórios. Exemplos:

1) ... ouvem-se vozes exaltadas para onde acorreram muitos fotógrafos e telegrafistas para registrarem o fato.

O uso do vocábulo telegrafista é inadequado neste contexto, pois o fato que causa espanto será documentado por fotógrafos e, talvez, por cronistas, que, depois, poderão escrever uma crônica sobre ele, mas certamente telegrafistas não são espectadores comuns nessas circunstâncias.

Ao lado deste, há um outro problema, de ordem sintática: trata-se do emprego de para onde, que teria vozes exaltadas como referente, o que não é possível, porque esse referente não contém idéia de lugar, implícita no pronome relativo onde.

Cabe ainda uma observação quanto ao tempo verbal de ouvem-se e acorreram, presente e pretérito perfeito, respectivamente. Seria mais adequado os dois verbos estarem no mesmo tempo.

2) O governo principalmente não corresponde de uma maneira correta em relação ao nível de condições que para muitos seriam uma decisão óbvia.

Nesta frase, há duas incoerências semânticas. A primeira decorre do uso inadequado de corresponder - corresponder em relação ao nível - que poderia ser substituído por responder, mas, mesmo assim, o complemento teria que ser modificado, para resolver o problema da incoerência sintática - corresponder a (alguma coisa). A segunda está na expressão nível de condições. O vocábulo nível é desnecessário, podendo-se dizer simplesmente em relação às condições.

3) Educação, problema universal que por direito todo indivíduo deve ter acesso.

A inadequação, parece-nos, se deve ao fato de não ficar claro qual é o antecedente do pronome que. Da maneira como foi escrita a frase, o antecedente é problema universal, e, neste caso, a incoerência semântica está na não-combinação entre os sentidos de ter acesso e problema. Um problema precisa ser resolvido, solucionado, mas não ser alcançado, que é o sentido de ter acesso. É muito mais provável que o autor desta frase tenha pensado que todo indivíduo deve ter acesso à educação, mas, da forma como ordenou as palavras, causou ambigüidade com relação ao antecedente do que.
Ainda dentro deste tipo de coerência, lembramos que o pouco domínio do sentido dos vocábulos e das restrições combinatórias podem também gerar frases com problemas de compreensão, como as que seguem:

O jardim que circula a casa estava maltratado.
Entramos em um círculo de mudanças.
O rei quis obter as luxúrias que sua posição oferecia.
... sendo este o dominador comum das mudanças.
O Brasil é um país em alta-rotatividade.
O que existe é um apontamento dos erros do vestibular.
A televisão transmite lazer.
Não deu asas ao pensamento, obviamente com medo de aferir a opinião dos outros.
Isto acontece quando você está batendo uma conversa informal.
O quarto era o maior ambiente do barraco.
Minhas suspeitas se atrapalham.
O sol deixa um rastro de cor reflexada na água.
A audiência no Maracanã é grande quando jogam Vasco e Flamengo.
... vencendo a oscilação que repousava em sua mente.
Jamais fui a uma igreja seja ela de qual raça ou costume.
O tempo nos proporciona muitos sacrifícios.
O armário estava desarrumado, com as gavetas afogadas de tantas roupas dispersivas.


Coerência Sintática

Refere-se aos meios sintáticos usados para expressar a coerência semântica: conectivos, pronomes, etc. Exemplos:
1) Então as pessoas que têm condições procuram mesmo o ensino particular. Onde há métodos, equipamentos e até professores melhores.

A coerência deste período poderia ser recuperada se duas alterações fossem feitas. A primeira seria a troca do relativo onde, específico de lugar, para no qual ou em que (ensino particular, no qual/ em que há métodos ...), e a segunda seria a substituição do ponto por vírgula, de maneira que a oração relativa não ocorresse como uma oração completa e independente da anterior. Teríamos a seguinte oração, sem problemas de compreensão: Então as pessoas que têm condições procuram mesmo o ensino particular, no qual há equipamentos e até professores melhores.

2) Na verdade, essa falta de leitura, de escrever, seja porque tudo já vem pronto, mastigado para uma boa compreensão, não precisando pensar.
Há, nesta frase, vários problemas que prejudicam a sua coerência. O primeiro é o não-paralelismo entre leitura (nome) e escrever (verbo); seria desejável, por exemplo, dizer falta de ler, de escrever, ou falta de leitura, falta de treino de escrita. Depois foi empregada a conjunção seja, que geralmente se usa para apresentar mais de uma alternativa: seja porque tudo já vem pronto, seja porque não há estímulo por parte dos professores; usada isoladamente, ela perde o seu sentido alternativo. Talvez o autor estivesse querendo dizer seja porque tudo já vem mastigado; a elipse da conjunção na segunda expressão foi inadequada. Percebemos, ainda, que o sujeito essa falta de leitura acabou não se juntando a nenhum predicado, e a frase ficou fragmentada. Por último, não foi explicitado o termo que pode preencher essa função.

3) O papel preponderante da escola, que seria de formar e informar, principalmente crianças e adultos, hoje não está alcançando esse objetivo.
Esta frase apresenta o seguinte problema: ela é longa demais, por isso o predicado, muito distante do sujeito, acaba discordando dele, não gramaticalmente, mas pela inadequação do vocabulário. Pode-se dizer que há um cruzamento na estrutura da frase, o que causa uma incoerência sintática.



O papel da escola

X

não está alcançando esse objetivo.



A escola

não está sendo cumprido.

(As frases usadas como exemplos foram produzidas por alunos recém-ingressos na universidade.)



Coerência Estilística

Percebemos, pelos exemplos citados abaixo, que este tipo de coerência não chega, na verdade, a perturbar a interpretabilidade de um texto; é uma noção relacionada à mistura de registros lingüísticos. É desejável que quem escreve ou lê se mantenha num estilo relativamente uniforme. Entretanto, a alternância de registros pode ser, por outro lado, um recurso estilístico.

Leia este poema de Manuel Bandeira:

Teresa, se algum sujeito bancar o
sentimental em cima de você
e te jurar uma paixão do tamanho de um
bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA

O autor procede como se estivesse falando, aconselhando alguém, advertindo sobre uma possível "cantada". Há mistura de tratamento (tu/você), mistura de registros, pois o autor utiliza várias expressões da língua oral, como "do tamanho de um bonde", "se ele se rasgar todo", "cai fora" , ao mesmo tempo em que emprega o futuro do subjuntivo, tempo mais comum num registro mais cuidado.


Agora leia este trecho, extraído de uma aula gravada:

... isso aí é um conceitozinho um pouco maior, é que nós sabemos que os cloretos, por decoreba, aquele negócio que eu falei, os cloretos e prata, chumbo são insolúveis, todos os outros cloretos são solúveis. Agora pergunto: aquilo lá não é uma cascata muito grande? Quando a gente agora está por dentro do assunto? O que o cara quer dizer com solúveis, muito solúveis, pouco solúveis? Apenas um conceito relativo. AgCl é considerado insolúvel porque o que fica de AgCl é um troço tão irrisório que a gente não considera ... Entendeu qual é a jogada? O que tem na solução daqueles íons não vai atrapalhar ninguém. Você pode comer quilos desse troço que a prata não vai te perturbar.

(Corpus do Projeto NURC/RJ - UFRJ- Informante: Homem, 31 anos, Professor de química numa aula para o terceiro ano do segundo grau.)


Nesta exposição, chamada, dentro do corpus do projeto, de elocução formal, o professor emprega uma grande variação de registro, movendo-se todo o tempo entre o formal, para explicar o conceito de solubilidade, e o informal, servindo-se de gírias (troço, cascata, estar por dentro, jogada, decoreba, cara), talvez com o objetivo de tornar a explicação menos pesada e a exposição mais interessante para os alunos, aproximando-se deles ao usar essa maneira de falar. Portanto, nesta passagem, a mistura de registros, sem causar incoerência, pode ter uma causa objetiva.



Coerência Pragmática

Refere-se ao texto visto como uma seqüência de atos de fala. Para haver coerência nesta seqüência, é preciso que os atos de fala se realizem de forma apropriada, isto é, cada interlocutor, na sua vez de falar, deve conjugar o seu discurso ao do seu ouvinte. Quando uma pessoa faz uma pergunta a outra, a resposta pode se manifestar por meio de uma afirmação, de outra pergunta, de uma promessa, de uma negação. Qualquer uma dessa seqüências seria considerada coerente. Por outro lado, se o interlocutor não responder, virar as costas e sair andando, começar a cantar, ou mesmo dizer algo totalmente desconectado do tema da pergunta, estas seqüências seriam consideradas incoerentes. Exemplo:

A: Você pode me dizer onde fica a Rua Alice?

B: O ônibus está muito atrasado hoje.

Piadas podem ser elaboradas a partir de incoerências:

No balcão da companhia aérea, o viajante perguntou à atendente:
A - A senhorita pode me dizer quanto tempo dura o vôo do Rio a Lisboa?
B - Um momentinho.
A - Muito obrigado.

Para quem fez a pergunta, não pareceu nem um pouco incoerente a resposta obtida. Entretanto, a frase de B não é a resposta, é simplesmente um pedido de tempo para depois dar atenção ao interlocutor A. Nós é que percebemos a incoerência da seqüência e tomamos o conjunto como uma piada.

Há ainda incoerências geradas a partir da desobediência a articulações de conteúdo. Se você ouvir a frase Meu irmão é filho único pode pensar que quem a pronunciou desconhece o sentido dos vocábulos usados, pois a seqüência contém uma contradição. O sentido de irmão inclui o fato de que esse indivíduo tem, pelo menos, uma irmã ou irmão.

E um último exemplo pode ser esta frase, ouvida recentemente em um programa de televisão: "Me inclui fora dessa." Parece que o emissor não conhece o sentido do verbo incluir, que certamente não pode ocorrer combinado com fora. Ou então, usa expressamente o advérbio fora para explicar sua intenção de não ser incluído em algum projeto.


fonte: portrasdasletras

REDAÇÃO: AS QUALIDADES DE UM TEXTO

AS QUALIDADES DE UM TEXTO


São qualidades da redação que você deve cultivar: a concisão, a correção, a clareza e a elegância.

A Concisão

Ser conciso significa que não devemos abusar das palavras para exprimir uma idéia. Deve-se ir direto ao assunto, não ficar enrolando, "enchendo lingüiça". Significa, enfim, eliminar tudo aquilo que é desnecessário.


A Correção


A linguagem utilizada na redação deve estar de acordo com a norma culta, ou seja, deve obedecer aos princípios estabelecidos pela gramática.
Conhecer as normas que regem o uso da língua é fundamental para a produção de um texto correto. Evidentemente, a maioria das pessoas não conhece de cor todas as regras gramaticais. Por isso, em caso de dúvidas na redação, não hesite em consultar um bom livro de gramática.
Tome cuidado com alguns desvios de linguagem que comumente aparecem em redações:

Grafia - tome cuidado com a grafia de palavras que não conheça. Em caso de dúvidas, consulte o dicionário. Se não for possível, substitua a palavra por outra cuja grafia você conheça. Não se esqueça de verificar a acentuação das palavras.

Flexão das palavras - cuidado com a formação do plural de algumas palavras, sobretudo as compostas (primeiro-ministro, abaixo-assinado, luso-brasileiro, etc.)

Concordância - lembre-se de que o verbo sempre concordará com o sujeito e os nomes devem estar concordando entre si.

Regência - fique atento à regência de verbos e nomes, sobretudo daqueles que exigem a preposição a, a fim de não cometer erro no emprego da crase.

Colocação dos pronomes - observe a colocação dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, nos, lhe, o, a, os, as).

A Clareza

A clareza consiste na expressão da idéia de forma que possa ser rapidamente compreendida pelo leitor. Ser claro é ser coerente, não contradizer-se, não confundir o feitor.
São inimigos da clareza: a desobediência às normas da língua, os períodos longos, o vocabulário rebuscado ou impreciso.


A Elegância


A elegância consiste numa leitura de texto agradável ao leitor. É conseguida quando se observam as qualidades que apontamos anteriormente (a correção gramatical, a clareza e a concisão) e também pelo conteúdo da redação, que deve ser original, criativo.

Lembre-se de que a elegância deve começar pela própria apresentação do texto. Deve apresentar-se limpo, sem borrões ou rasuras e com letra legível.

FONTE:PORTALDOADMINISTRADOR